Chamava-se Eva, corria descalça e tinha um sonho.
Minto, não tinha só um sonho, tinha vários sonhos instrumentais para conseguir alcançar O SONHO.
Neste momento, um dos seus pequenos sonhos passava por conseguir apanhar o comboio, não o podia mesmo perder, portanto, com os stilettos na mão, correu pela plataforma até conseguir entrar, mesmo no último instante.
Respirou fundo, encontrou a casa de banho e, depois de se retocar, olhou para o espelho com um sorriso de satisfação, o calçado não tinha sido boa opção para uma corrida, mas estava linda e sabia que ia triunfar.
Saiu do comboio, chamou um táxi, e indicou “para a Ópera, se faz favor.”
“Uma menina assim gira? Não prefere antes uma discoteca?”
Eva riu e disse “hoje não. Hoje vou só assistir à ópera, mas daqui por dois anos vai ver a minha cara nos cartazes como a nova grande diva. Acredite.”
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sábado, 8 de março de 2008
Sete sonhos para Eva - I
Chamava-se Eva, corria descalça e tinha um sonho.
Guardava-o em segredo no calor de um fruto de pele rubra. Pensava-o de longe, como se pensa uma ilha ou uma lua. Tocava-o de leve, como se fosse uma pétala, um perfume. Um dia quis partilhá-lo. Apresentou-o ao homem, sem palavras. Exibiu-o no silêncio de um gesto estendido, como quem diz: “Vê! Sinto-o carne onde se mostra pele”. Aquela dureza de corpo vivo a encher a vista, a roer o medo, atiçou nele a fome do que faltava. Dividiram entre si a vontade de serem mais. De serem pior.
A dentada rasgou o jardim. Abriu o portão. Soltou o monstro. Expulsos, com declaração de culpa, vergonha e temor, apenas levaram o fruto com que fizeram casa, sombra, amor.
Naquele instante, o tempo começou. Ainda correm, descalços, nas horas que sonham, em círculos, a tontura de um dia feliz.
Guardava-o em segredo no calor de um fruto de pele rubra. Pensava-o de longe, como se pensa uma ilha ou uma lua. Tocava-o de leve, como se fosse uma pétala, um perfume. Um dia quis partilhá-lo. Apresentou-o ao homem, sem palavras. Exibiu-o no silêncio de um gesto estendido, como quem diz: “Vê! Sinto-o carne onde se mostra pele”. Aquela dureza de corpo vivo a encher a vista, a roer o medo, atiçou nele a fome do que faltava. Dividiram entre si a vontade de serem mais. De serem pior.
A dentada rasgou o jardim. Abriu o portão. Soltou o monstro. Expulsos, com declaração de culpa, vergonha e temor, apenas levaram o fruto com que fizeram casa, sombra, amor.
Naquele instante, o tempo começou. Ainda correm, descalços, nas horas que sonham, em círculos, a tontura de um dia feliz.
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